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QUANDO UMA FERIDA EMOCIONAL ENTRA NO QUARTO

Foto do escritor: Priscila Furtado
Priscila Furtado
11 de ago.
6 min de leitura

Rejeição, abandono, traição, vergonha e tantas outras dores podem atravessar a porta do quarto sem que o casal perceba.

Às vezes, o casal acredita que está enfrentando um problema de sexualidade.

Mas, quando olhamos mais profundamente, descobrimos que existe uma história emocional pedindo para ser ouvida.

Talvez exista uma mulher que ama o marido, mas carrega dentro de si a marca de ter sido rejeitada.

Talvez exista um homem que ama a esposa, mas aprendeu durante a vida que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza.

Talvez exista alguém que foi traído e, mesmo depois de decidir continuar no casamento, ainda luta para confiar.

Talvez exista vergonha.

Medo.

Insegurança.

Comparação.

Culpa.

E essas coisas não ficam do lado de fora quando o casal entra no quarto.

Elas entram junto.

QUANDO O CORPO ESTÁ PRESENTE, MAS A HISTÓRIA TAMBÉM ESTÁ

Existe uma frase que eu gostaria que você guardasse:

Nem toda reação que aparece no casamento nasceu no casamento.

Às vezes, uma situação atual toca uma ferida antiga.

Um comentário aparentemente pequeno pode despertar uma história inteira.

Um momento de distância pode ser interpretado como rejeição.

Uma dificuldade na intimidade pode despertar o medo de não ser desejada.

Uma mudança na rotina pode trazer novamente aquela sensação de abandono.

E, sem perceber, a pessoa deixa de responder apenas ao que está acontecendo agora e começa a responder também ao que já viveu.

É por isso que precisamos ter cuidado antes de rotular o outro.

Antes de dizer “você não me ama”.

Antes de pensar “ele não me deseja”.

Antes de concluir “ela não sente mais nada por mim”.

Talvez exista algo mais profundo acontecendo.

QUANDO A REJEIÇÃO AINDA MORA DENTRO

A rejeição pode deixar uma pergunta silenciosa:

“Será que eu sou suficiente?”

E essa pergunta pode acompanhar uma pessoa durante muitos anos.

Ela pode aparecer na maneira como recebe um elogio.

Na dificuldade de acreditar que é amada.

Na necessidade constante de confirmação.

No medo de ser abandonada.

E também na intimidade.

Porque quando alguém carrega profundamente a sensação de não ser desejado, qualquer pequena distância pode parecer uma confirmação daquela velha história.

“Eu sabia.”

“Ele não me quer.”

“Eu não sou suficiente.”

Mas aqui precisamos separar passado de presente.

Uma experiência de rejeição faz parte da sua história.

Ela não precisa se transformar na sua identidade.

Você foi rejeitado.

Isso não significa que você é rejeitável.

Você foi abandonada.

Isso não significa que será abandonada novamente.

Você foi traído.

Isso não significa que todo relacionamento terminará em traição.

A ferida explica algumas reações.

Mas ela não precisa governar o restante da sua história.

QUANDO A TRAIÇÃO CONTINUA PRESENTE MESMO DEPOIS DO PERDÃO

Essa talvez seja uma das feridas mais delicadas dentro de um casamento.

Existe uma diferença entre decidir perdoar e conseguir reconstruir imediatamente a confiança.

Perdão não significa apagar a memória.

Também não significa fingir que nada aconteceu.

E reconstrução não acontece apenas porque alguém disse “me desculpe”.

A confiança precisa de tempo, coerência, transparência e atitudes consistentes.

Por isso, quando existe uma história de traição, não podemos simplesmente dizer ao casal:

“Esqueçam isso e sigam em frente.”

Não.

É preciso cuidar da ferida.

É preciso conversar.

É preciso compreender o que aconteceu.

É preciso reconstruir segurança.

E, quando necessário, buscar ajuda profissional.

Porque algumas feridas precisam de um espaço seguro para serem elaboradas.

QUANDO A VERGONHA ENTRA NO QUARTO

Existem pessoas que aprenderam a olhar para a própria intimidade através da vergonha.

Foram ensinadas a não falar.

A não perguntar.

A não expressar.

A sentir culpa por ter desejos.

A ter medo de conversar.

E então chegam ao casamento esperando que tudo se resolva automaticamente.

Mas o casamento não apaga automaticamente aquilo que a história ensinou.

Por isso, precisamos aprender a diferenciar fé de vergonha.

Princípios de culpa.

Limites de medo.

A sexualidade dentro do casamento pode ser tratada com maturidade, respeito, responsabilidade e dignidade.

Falar sobre intimidade não precisa ser vulgar.

Pode ser profundo.

Pode ser cuidadoso.

Pode ser cristão.

Pode ser terapêutico.

Porque quando existe aliança, existe também espaço para diálogo.

TALVEZ VOCÊ NÃO PRECISE DE MAIS COBRANÇA

Talvez precise de segurança.

Talvez seu marido não precise ouvir:

“Você nunca me procura.”

Talvez precise ouvir:

“Quero entender como você está.”

Talvez sua esposa não precise ouvir:

“Você nunca quer.”

Talvez precise ouvir:

“Existe alguma coisa que está dificultando para você se sentir próxima de mim?”

Percebe a diferença?

Uma frase acusa.

A outra abre uma porta.

E algumas portas só se abrem quando o outro percebe que não será julgado ao entrar.

O QUARTO TAMBÉM PRECISA SER UM LUGAR DE SEGURANÇA

Intimidade não pode ser construída sobre medo.

Não pode ser obrigação.

Não pode ser instrumento de punição.

Não pode ser moeda de troca.

Não pode ser usada para manipular.

A intimidade saudável precisa de respeito, diálogo, reciprocidade e liberdade para que os dois possam expressar o que sentem e seus limites.

Porque antes de perguntar:

“Como podemos melhorar nossa vida íntima?”

Talvez seja necessário perguntar:

“Como podemos fazer um ao outro se sentir mais seguro dentro da nossa relação?”

Essa pergunta muda muita coisa.

E AQUI COMEÇA A RECONEXÃO

Talvez vocês tenham passado muito tempo tentando resolver o que acontece no quarto sem olhar para aquilo que acontece dentro do coração.

Então hoje eu quero propor uma mudança de caminho.

Antes de tentar cobrar mais desejo, procure mais conexão.

Antes de exigir uma resposta, procure compreender.

Antes de interpretar, pergunte.

Antes de acusar, escute.

Antes de desistir, veja se existe uma ferida que precisa ser tratada.

E, principalmente, não tente fazer sozinho aquilo que precisa ser cuidado com ajuda.

Buscar acompanhamento psicológico ou terapêutico quando existe sofrimento persistente não significa que o casamento fracassou.

Significa que vocês decidiram cuidar dele.

UMA PERGUNTA PARA O SEU CORAÇÃO

Se você pudesse sentar hoje diante do seu próprio coração e perguntar:

“O que eu estou levando para dentro da minha intimidade que pertence ao meu passado?”

O que ele responderia?

Talvez seja uma pergunta difícil.

Mas perguntas profundas podem abrir caminhos profundos.

Talvez você descubra que está tentando proteger uma parte de você que ainda sente medo.

Talvez perceba que está interpretando o presente através de uma dor antiga.

Talvez reconheça que precisa conversar com seu cônjuge.

Talvez perceba que precisa de ajuda para tratar algo que sozinho você não conseguiu.

E tudo bem.

Você não precisa resolver toda a sua história em um único dia.

Mas precisa começar a cuidar dela.

RESSIGNIFICAR NÃO É APAGAR

Ressignificar uma ferida não significa dizer que aquilo não doeu.

Doeu.

Foi real.

Deixou marcas.

Mas a ressignificação começa quando você consegue olhar para aquela história e dizer:

“Isso aconteceu comigo, mas isso não vai determinar quem eu serei para sempre.”

Você pode aprender novamente a confiar.

Pode aprender a receber amor.

Pode aprender a conversar.

Pode reconstruir sua segurança.

Pode voltar a se enxergar além daquilo que aconteceu.

E pode permitir que o seu casamento seja construído a partir do presente, sem negar o passado, mas sem permanecer prisioneiro dele.

UMA PALAVRA PARA O CASAL

Em Cânticos de Salomão encontramos algo muito bonito: um casal que se olha, se admira e expressa aquilo que enxerga no outro.

Existe encantamento.

Existe valorização.

Existe palavra.

Existe presença.

Isso também é intimidade.

Talvez seu casamento esteja precisando voltar a olhar.

Não apenas olhar para o corpo.

Olhar para a pessoa.

Para a história.

Para o coração.

Para aquilo que ela venceu.

Para aquilo que ainda dói.

Para aquilo que ela se tornou.

Porque amar alguém profundamente também é aprender a conhecer as partes que ninguém mais vê.

PARA LEVAR PARA A VIDA

Hoje, quando você olhar para seu marido ou para sua esposa, tente não enxergar somente aquilo que está faltando.

Procure enxergar a pessoa inteira.

A história inteira.

As lutas.

As conquistas.

As feridas.

Os sonhos.

E lembre:

Vocês não precisam ser um casal perfeito.

Precisam ser um casal disposto a cuidar.

Cuidar da comunicação.

Cuidar da confiança.

Cuidar das feridas.

Cuidar da amizade.

Cuidar da intimidade.

Cuidar da aliança.

Porque algumas vezes o que parece falta de desejo é uma falta de segurança.

E algumas vezes o que parece distância é uma ferida pedindo cuidado.

PARA GUARDAR NO CORAÇÃO

“Não tente exigir do corpo aquilo que o coração ainda não conseguiu entregar.”

Talvez a restauração que vocês estão procurando não comece no quarto.

Talvez comece numa conversa.

Num pedido de perdão.

Num abraço.

Num “eu estou aqui”.

Num “eu quero entender você”.

Num “vamos cuidar disso juntos”.

E talvez seja justamente aí que Deus comece a reconstruir aquilo que a dor, o silêncio e o tempo foram desgastando.

A ferida pode fazer parte da sua história.

Mas ela não precisa escrever o final dela.

MOMENTO TERAPÊUTICO

Hoje, sente-se consigo mesma.

Olhe para dentro.

Pergunte:

“Que ferida minha ainda está pedindo para ser cuidada?”

Depois pergunte:

“O que eu preciso parar de carregar sozinha?”

E, finalmente:

“Qual é o próximo passo de cuidado que posso dar?”

Não precisa ter todas as respostas.

Só precisa ter coragem para começar.


Com carinho,

Priscila Furtado | Psicanalista Cristã | No Divã dos Céus

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