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Desejo não se cobra, se cultiva

Foto do escritor: Priscila Furtado
Priscila Furtado
11 de ago.
6 min de leitura

Quando a cobrança entra na intimidade, o desejo pode começar a se esconder

Existe uma pergunta que muitos casais fazem em silêncio:

“Por que meu marido ou minha esposa não me procura mais como antes?”

E, junto com essa pergunta, podem surgir outras:

“Será que deixou de me amar?”

“Será que existe outra pessoa?”

“Será que eu não sou mais desejável?”

“Por que antes havia tanta vontade e agora parece tão diferente?”

Essas perguntas podem machucar porque, muitas vezes, transformamos a mudança do desejo em uma medida do amor.

Mas desejo e amor não são exatamente a mesma coisa.

O amor pode continuar existindo enquanto o desejo atravessa fases, mudanças e até períodos de silêncio.

E existe algo importante que todo casal precisa compreender:

desejo não se cobra, se cultiva.

Quando o desejo vira obrigação

A cobrança pode parecer uma tentativa de aproximar o casal, mas frequentemente produz o efeito contrário.

Quando uma pessoa começa a sentir que precisa desejar para não decepcionar o outro, a intimidade pode deixar de ser um espaço de encontro e transformar-se em uma espécie de obrigação.

“Você nunca quer.”

“Você sempre está cansado.”

“Eu tenho que pedir.”

“Você não me procura.”

“Então você não sente mais nada por mim.”

Essas frases podem nascer de uma dor legítima: a necessidade de se sentir amado, escolhido e desejado.

Mas, quando repetidas constantemente, podem criar um ciclo de pressão, culpa, afastamento e ressentimento.

E quanto maior a pressão, mais difícil pode se tornar o surgimento espontâneo do desejo.

Porque ninguém floresce emocionalmente quando se sente constantemente avaliado.

O desejo também precisa de segurança

Intimidade exige vulnerabilidade.

Para se aproximar verdadeiramente do outro, precisamos sentir que podemos estar ali sem medo de sermos ridicularizados, comparados, rejeitados ou pressionados.

O quarto não começa na cama.

Ele começa na maneira como o casal se trata durante o dia.

Começa no olhar.

Na conversa.

No respeito.

No toque que não exige nada em troca.

Na gentileza.

Na admiração.

Na capacidade de ouvir.

Na sensação de que existe segurança emocional naquele relacionamento.

Por isso, muitas vezes, aquilo que parece ser um problema sexual precisa ser investigado também no campo emocional.

Como está a comunicação desse casal?

Existe ressentimento acumulado?

Existe mágoa?

Existe excesso de críticas?

Existe distanciamento?

Existe sobrecarga?

Existe falta de tempo juntos?

Existe alguma ferida que nunca foi conversada?

Antes de perguntar “por que você não me deseja?”, talvez seja necessário perguntar:

“Como temos cuidado da nossa relação?”

Desejo não é botão de ligar e desligar

Existe uma expectativa de que o desejo deveria aparecer sempre da mesma maneira durante toda a vida conjugal.

Mas o desejo pode mudar.

A rotina muda.

O corpo muda.

A idade muda.

As responsabilidades mudam.

A maternidade e a paternidade podem transformar a dinâmica da casa.

O estresse pode interferir na disponibilidade emocional.

Conflitos conjugais também podem afetar a aproximação.

Tudo isso faz parte da complexidade da vida a dois.

Por isso, comparar o casamento de hoje com o início do namoro pode gerar uma cobrança injusta.

O objetivo não deveria ser voltar exatamente ao que vocês eram.

Talvez seja construir uma nova forma de desejar, amar e se encontrar nesta fase da vida.

Cultivar é diferente de exigir

Cultivar significa cuidar das condições necessárias para que algo possa crescer.

Um casal pode cultivar o desejo quando cultiva também a conexão.

Pode cultivar quando volta a conversar.

Quando resgata momentos a dois.

Quando demonstra carinho sem transformar todo toque em convite sexual.

Quando aprende a admirar novamente.

Quando demonstra interesse pela vida do outro.

Quando resolve conflitos.

Quando cria espaço para descanso.

Quando cuida da saúde emocional da relação.

Quando consegue dizer:

“Eu quero me aproximar de você, não pressionar você.”

Essa mudança de postura pode transformar completamente a atmosfera do relacionamento.

O toque também pode voltar a ser simplesmente toque

Um dos aspectos que merecem atenção é quando todo contato físico passa a carregar uma expectativa.

Um abraço significa que haverá sexo.

Um beijo significa que haverá sexo.

Um carinho significa que haverá sexo.

Com o tempo, o outro pode começar a evitar até mesmo demonstrações simples de afeto porque sente que qualquer aproximação poderá gerar uma obrigação.

Por isso, o casal precisa reaprender o valor do toque que simplesmente comunica:

“Estou aqui.”

Um abraço que acolhe.

Um beijo que aproxima.

Uma mão segurada durante uma conversa.

Um carinho que não exige uma resposta imediata.

A segurança pode abrir espaço para a espontaneidade.

A admiração também alimenta a intimidade

É difícil manter proximidade quando o outro deixou de ser visto.

Quando o casal passa a enxergar apenas os defeitos, as falhas, as contas, as responsabilidades e os problemas, a pessoa amada pode desaparecer atrás da função que exerce.

Ele vira apenas “o pai das crianças”.

Ela vira apenas “a mãe”.

Ele vira o provedor.

Ela vira a responsável pela casa.

E, pouco a pouco, o casal deixa de olhar um para o outro como homem e mulher, companheiros e amantes da vida.

Por isso, recuperar a admiração é tão importante.

Observe novamente.

O que você admira nessa pessoa?

O que ela faz que você talvez tenha deixado de reconhecer?

Que característica dela despertava seu encantamento no começo?

Talvez você não precise procurar algo novo.

Talvez precise voltar a enxergar aquilo que a rotina fez você parar de perceber.

A fé também precisa ser compreendida com maturidade

Dentro do casamento cristão, falar sobre desejo não deveria ser motivo de vergonha.

A Bíblia não trata o casamento apenas como uma instituição.

Ela também fala de companheirismo, prazer, afeto, desejo e alegria na vida a dois.

Em Cânticos de Salomão encontramos uma linguagem de admiração e encantamento entre marido e mulher.

Isso nos ajuda a compreender que espiritualidade e intimidade conjugal não precisam viver em lados opostos.

O corpo não precisa ser tratado como inimigo da fé.

A intimidade conjugal pode ser vivida com respeito, responsabilidade, consentimento, cuidado e amor.

A fé não deveria produzir culpa onde Deus deseja produzir maturidade.

Talvez vocês não tenham perdido o amor

Talvez vocês tenham perdido o espaço para o encontro.

Talvez tenham acumulado cansaço.

Talvez tenham deixado de conversar.

Talvez tenham transformado o quarto em um lugar de cobrança.

Talvez existam feridas emocionais que precisam ser cuidadas.

Talvez vocês estejam tentando resolver na cama aquilo que precisa primeiro ser conversado fora dela.

E talvez a pergunta não seja:

“Como faço meu cônjuge voltar a me desejar?”

Mas:

“Como podemos voltar a construir um relacionamento no qual o desejo tenha espaço para nascer?”

Essa é uma pergunta muito mais profunda.

Um exercício para o casal

Hoje, em vez de conversar sobre frequência sexual, façam três perguntas um ao outro:

O que faz você se sentir amado por mim?

O que tem nos afastado emocionalmente?

O que você gostaria que voltássemos a fazer juntos?

Não interrompa.

Não se defenda.

Não transforme a conversa em tribunal.

Apenas escute.

Porque algumas respostas podem revelar que o que estava faltando não era simplesmente sexo.

Era conexão.

Era atenção.

Era descanso.

Era carinho.

Era admiração.

Era segurança.

Era tempo.

Era conversa.

Era sentir-se escolhido novamente.

Para guardar no coração

Desejo não floresce onde existe medo de cobrança. Ele encontra espaço onde existe segurança, admiração, conexão e liberdade para o encontro.

O casamento não precisa viver eternamente preso à intensidade dos primeiros meses.

O amor amadurece.

O corpo muda.

A vida muda.

As responsabilidades mudam.

E o desejo também pode assumir novas formas.

O importante é não desistir de conhecer novamente a pessoa que está ao seu lado.

Talvez o caminho para uma intimidade mais profunda não comece com uma cobrança.

Talvez comece com um olhar.

Uma conversa.

Um abraço.

Um pedido de perdão.

Um momento a dois.

Uma palavra de admiração.

Uma escolha diária de voltar a se encontrar.

Porque, no casamento, intimidade não é apenas estar perto. É permitir que o outro continue encontrando você.

Momento terapêutico

Pare por alguns minutos e pense:

Tenho tentado cobrar do meu cônjuge aquilo que talvez eu precise primeiro aprender a cultivar?

E depois pergunte a si mesma:

O que posso fazer, a partir de hoje, para tornar nosso relacionamento emocionalmente mais seguro, leve e conectado?

Pequenas mudanças repetidas podem reconstruir caminhos que a rotina foi apagando.

E quando o casal decide cultivar o vínculo, o desejo deixa de ser uma obrigação a ser cumprida e pode voltar a ser uma experiência de encontro.

No Divã dos Céus, aprendemos que cuidar do casamento também é cuidar das emoções que habitam dentro dele.


Com carinho,

Priscila Furtado | Psicanalista Cristã | No Divã dos Céus

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