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A INTIMIDADE COMEÇA ANTES DO QUARTO

Foto do escritor: Priscila Furtado
Priscila Furtado
11 de ago.
4 min de leitura

Quando as feridas emocionais, a comunicação e a conexão influenciam a vida a dois


Existe uma frase que tenho repetido muito quando falo sobre casamento:

“A intimidade mais profunda não começa quando a porta do quarto se fecha. Ela começa quando duas pessoas se sentem seguras para abrir o coração uma para a outra.”

E quanto mais converso com casais, mais percebo como essa verdade é necessária.

Muitas vezes, quando um casal percebe que a vida íntima mudou, a primeira pergunta é:


“O que aconteceu com o nosso desejo?”

Mas talvez a pergunta precise ser outra:

“O que aconteceu com a nossa conexão?”

Porque desejo não vive isolado.

Ele também é influenciado pela maneira como nos sentimos dentro da relação.


Quando o quarto recebe aquilo que não foi resolvido durante o dia…

Imagine um casal que passa o dia inteiro distante.

Quase não conversa.

Troca poucas palavras além das necessárias.

Acumula pequenas mágoas.

Discute por coisas aparentemente insignificantes.

Cada um vive mergulhado em suas próprias responsabilidades.

E então chega a noite.

A expectativa é que, ao entrar no quarto, toda aquela distância simplesmente desapareça.

Mas o corpo pode estar ali enquanto o coração ainda está tentando processar tudo aquilo que aconteceu durante o dia.

Por isso, uma vida íntima saudável não pode ser construída somente dentro do quarto.

Ela começa na cozinha.

Na sala.

No carro.

Nas mensagens durante o dia.

Na maneira como um olha para o outro.

Na maneira como um escuta o outro.

No abraço que não exige nada em troca.

No elogio.

No cuidado.

Na parceria.

Na segurança.

O quarto não deveria ser o lugar onde o casal tenta consertar sozinho tudo aquilo que passou o dia inteiro quebrando.


E as feridas emocionais?


Essa é uma parte que considero fundamental.

Nem toda dificuldade na intimidade nasceu no casamento.

Algumas dores começaram muito antes.

Rejeição.

Abandono.

Humilhação.

Comparação.

Traição.

Vergonha.

Experiências traumáticas.

Críticas sobre o corpo.

Falta de afeto.

Relacionamentos anteriores dolorosos.

Tudo isso pode deixar marcas emocionais.

E, quando essas feridas não são cuidadas, podem aparecer dentro do relacionamento atual.

Às vezes, uma pessoa reage intensamente a uma situação presente porque aquela situação tocou uma dor antiga.

Por isso, precisamos ter cuidado para não transformar o cônjuge em inimigo quando, na verdade, existe uma história emocional que precisa ser compreendida e tratada.

“Nem toda reação que acontece no casamento nasceu no casamento.”

Essa frase merece ser guardada.


Sexualidade não deveria ser um assunto cercado de vergonha


Dentro da fé cristã, muitas pessoas cresceram ouvindo muito sobre aquilo que não deveriam fazer e pouco sobre como construir uma intimidade saudável dentro do casamento.

E então chegam ao casamento carregando culpa, medo, vergonha e silêncio.

Mas conversar sobre sexualidade com responsabilidade não diminui a espiritualidade.

Pelo contrário.

Quando existe casamento, compromisso, respeito, reciprocidade e cuidado, podemos falar sobre intimidade com maturidade.

A Bíblia não apresenta o amor conjugal como algo sem beleza.

Em Cânticos 4:10–11, encontramos uma linguagem poética de admiração, encanto e valorização entre os amantes.

O amado não apenas sente.

Ele expressa.

Ele olha.

Ele admira.

Ele verbaliza.

Isso nos ensina algo muito simples:

O amor que existe dentro de nós também precisa encontrar uma maneira de chegar ao outro.


Talvez o seu cônjuge saiba que você o ama. Mas ele sente isso?


Essa é uma pergunta que gosto de fazer aos casais.

Porque existe diferença entre:

“Eu amo você.”

e:

“Eu percebo você.”

“Eu admiro você.”

“Eu agradeço por você.”

“Eu gosto de estar com você.”

“Eu ainda escolho você.”

“Você continua sendo importante para mim.”

A admiração alimenta a conexão.

E a conexão cria um ambiente emocional muito mais saudável para a intimidade.


Eclesiastes 9:9

“Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida…”

Esse versículo sempre me faz pensar em quantos casais estão apenas administrando a vida.

Pagam contas.

Criam filhos.

Trabalham.

Resolvem problemas.

Cuidam da casa.

Mas esqueceram de desfrutar a companhia um do outro.

Talvez o casamento não precise apenas de uma grande mudança.

Talvez precise de pequenas experiências de reencontro.

Um café juntos.

Uma caminhada.

Uma conversa sem celular.

Um jantar.

Uma viagem.

Uma oração.

Uma risada.

Um abraço.

Um encontro.

Porque intimidade também é amizade.


O cuidado dentro do quarto


Quando finalmente chegamos ao momento íntimo, existe uma coisa que não pode faltar:

respeito.

Intimidade conjugal não deve ser obrigação, cobrança ou moeda de troca.

Não deve existir pressão.

Não deve existir constrangimento.

Não deve existir comparação.

O casal precisa ter liberdade para conversar sobre sentimentos, necessidades, limites e dificuldades.

Porque intimidade saudável não é:

“Como conseguir o que eu quero do outro?”

É:

“Como podemos cuidar melhor da nossa conexão?”

Essa mudança de pergunta transforma muita coisa.


Um desafio para esta semana


Quero propor algo simples aos casais.

Durante sete dias, antes de pensar em recuperar qualquer coisa dentro do quarto, recuperem alguma coisa fora dele.

Todos os dias:

Olhe nos olhos.

Elogie algo específico.

Agradeça.

Pergunte como o outro está de verdade.

Toque com carinho sem transformar todo toque em expectativa.

Separe alguns minutos sem celular.

Relembrem uma memória boa.

E façam uma pergunta:

“O que eu posso fazer esta semana para você se sentir mais amado por mim?”

Depois, escute.

Sem defesa.

Sem justificar.

Sem transformar a resposta em discussão.

Apenas escute.


Para pensar antes de terminar

Talvez vocês não tenham perdido o amor.

Talvez tenham perdido tempo.

Talvez tenham perdido espaço para conversar.

Talvez tenham acumulado cansaço.

Talvez algumas feridas tenham ocupado lugares que antes pertenciam à admiração.

Talvez vocês simplesmente tenham esquecido como é bom estar juntos.

E isso pode ser reconstruído.

Não de uma vez.

Não por mágica.

Mas através de pequenas escolhas.

Porque casamento não floresce somente nos grandes momentos.

Ele floresce no cotidiano.

“O casamento não floresce porque duas pessoas se encontraram. O casamento floresce porque, todos os dias, duas pessoas decidem cuidar do jardim que Deus lhes confiou.”

Talvez hoje seja um bom dia para voltar a cuidar desse jardim.

Com amor, verdade, fé, diálogo e coragem para tratar aquilo que precisa ser tratado.


Com carinho

Priscila Furtado | Psicanalista Cristã | No Divã dos Céus

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