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Traumas da infância: é possível superá-los?

  • Foto do escritor: Priscila Furtado
    Priscila Furtado
  • 16 de jul.
  • 5 min de leitura

Algumas dores chegam à vida adulta sem fazer barulho.

Elas aparecem em forma de medo, insegurança, dificuldade de confiar, necessidade de agradar, crises de ansiedade ou padrões repetitivos nos relacionamentos.

Muitas pessoas pensam:

“Por que eu reajo assim?”

“Por que algo que aconteceu há tantos anos ainda mexe comigo?”

“Será que eu vou carregar essa dor para sempre?”

A resposta é: não.

Embora experiências difíceis da infância possam deixar marcas profundas, elas não precisam definir toda a nossa história.

A infância influencia quem nos tornamos, mas não determina quem podemos ser.

Compreender os traumas da infância é um caminho de consciência, cuidado e transformação.


O que é um trauma?


A palavra trauma significa uma ferida.

Quando falamos de trauma emocional, estamos falando de experiências que ultrapassaram a capacidade da pessoa de lidar emocionalmente com aquilo naquele momento.

Na infância, isso pode acontecer porque a criança ainda está desenvolvendo recursos internos para compreender, expressar e regular suas emoções.

Uma mesma experiência pode ser vivida de maneiras diferentes por cada pessoa.

O que causa impacto não é apenas o acontecimento, mas também a forma como a criança se sentiu, interpretou e encontrou (ou não) apoio para lidar com aquela situação.


Nem todo trauma nasce de um grande acontecimento


Muitas pessoas associam trauma apenas a situações extremas.

Mas existem também os chamados traumas relacionais ou emocionais, que podem surgir através de experiências repetidas.

Por exemplo:

  • sentir-se constantemente criticado;

  • não ter suas emoções validadas;

  • crescer acreditando que precisava merecer amor;

  • viver em um ambiente de instabilidade;

  • sentir que precisava esconder quem era;

  • não se sentir visto ou ouvido.

Às vezes, a ferida não vem apenas pelo que aconteceu.

Ela também pode vir pelo que faltou:

Faltou acolhimento.

Faltou proteção.

Faltou escuta.

Faltou segurança emocional.


Como o trauma da infância permanece na vida adulta?


Quando uma criança passa por experiências dolorosas, ela cria formas de adaptação.

Essas estratégias foram importantes naquele momento, porque ajudaram aquela criança a sobreviver emocionalmente.

O problema é que, na vida adulta, algumas dessas estratégias continuam funcionando mesmo quando já não são necessárias.

Uma criança que aprendeu:

“Preciso agradar para ser amada”

pode se tornar um adulto que tem dificuldade de dizer não.

Uma criança que aprendeu:

“Meus sentimentos não importam”

pode se tornar um adulto que ignora suas próprias necessidades.

Uma criança que aprendeu:

“Não posso confiar em ninguém”

pode ter dificuldade em construir vínculos profundos.

A ferida continua tentando proteger, mesmo quando já passou o perigo.


O trauma também mora no corpo


Durante muito tempo, acreditou-se que as emoções estavam apenas na mente.

Hoje sabemos, através da neurociência, que experiências emocionais também são registradas pelo corpo.

Situações de medo ou insegurança podem ativar mecanismos de proteção do sistema nervoso.

Por isso, algumas pessoas percebem:

  • tensão constante;

  • dificuldade para relaxar;

  • sensação de alerta;

  • reações intensas diante de determinadas situações;

  • cansaço emocional.

O corpo muitas vezes expressa aquilo que a pessoa ainda não conseguiu elaborar em palavras.

Como diz a conhecida frase:

“O corpo fala.”


O cérebro e a memória emocional


O cérebro humano possui sistemas responsáveis por registrar experiências importantes para nossa sobrevivência.

Quando uma criança vive situações dolorosas, o cérebro aprende a identificar possíveis ameaças para tentar protegê-la.

Por isso, na vida adulta, determinadas situações podem despertar respostas emocionais intensas.

Uma crítica pode parecer uma rejeição.

Uma distância pode parecer abandono.

Um conflito pode parecer uma ameaça ao vínculo.

Não porque a pessoa escolheu reagir assim, mas porque seu cérebro aprendeu aquele caminho.

A boa notícia é que o cérebro também possui capacidade de mudança.


Neuroplasticidade: o cérebro pode aprender

novos caminhos


A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de criar e fortalecer novas conexões.

Isso significa que experiências antigas podem ser ressignificadas.

Novos relacionamentos seguros, terapia, autoconhecimento, práticas emocionais saudáveis e experiências de pertencimento podem ajudar a construir novas respostas.

A cura emocional não significa apagar a memória.

Significa que aquela lembrança deixa de controlar suas emoções e escolhas.

Você passa a lembrar sem ser dominado pela dor.


A diferença entre lembrar e reviver


Existe uma diferença importante:

Lembrar é saber que algo aconteceu.

Reviver é sentir como se aquilo ainda estivesse acontecendo.

Muitas pessoas carregam situações antigas como se fossem presentes.

Uma parte delas ainda permanece presa naquele momento em que se sentiu pequena, rejeitada ou sem proteção.

O processo de cura permite que a pessoa compreenda:

“Isso aconteceu comigo, mas isso não define quem eu sou hoje.”


A psicanálise e a elaboração do trauma


Na psicanálise, o objetivo não é fazer a pessoa esquecer sua história.

O objetivo é ajudá-la a compreender os significados que foram construídos a partir dela.

Muitas vezes, a dor não está apenas no acontecimento, mas na conclusão que a pessoa tirou sobre si mesma.

Por exemplo:

“Eu fui rejeitada.”

pode se transformar em:

“Eu não sou digna de amor.”

A terapia ajuda a questionar essas crenças e construir uma narrativa mais saudável.

A pessoa deixa de ser apenas alguém que sofreu uma ferida e passa a ser alguém que pode ressignificar sua história.


Perdoar não significa negar a dor


Dentro da perspectiva cristã, muitas pessoas perguntam sobre perdão.

Perdoar não significa dizer que aquilo não machucou.

Não significa justificar atitudes erradas.

Não significa apagar a própria história.

O perdão é um processo de libertação interior.

É deixar de permitir que uma dor antiga continue controlando o coração.

A cura emocional também envolve reconhecer a verdade sobre o que aconteceu e permitir que Deus restaure áreas que foram feridas.


O olhar da Bíblia sobre a restauração


A Bíblia apresenta muitas histórias de pessoas que carregavam marcas profundas.

José foi rejeitado pelos próprios irmãos, mas sua história não terminou na rejeição.

Davi enfrentou perdas, conflitos e perseguições, mas encontrou em Deus um lugar de restauração.

Agar viveu abandono e solidão, mas descobriu que Deus era aquele que a via.

Isso nos ensina que Deus não ignora nossas dores.

Ele conhece nossa história completa.

O Salmo 147:3 declara:

“Só ele cura os de coração quebrantado e cuida das suas feridas.”

Deus não despreza um coração ferido.

Ele trabalha na restauração.


É possível superar os traumas da infância?


Sim.

Superar não significa fingir que nada aconteceu.

Significa deixar de viver prisioneiro daquilo que aconteceu.

A cura acontece quando aprendemos a:

  • reconhecer nossas dores;

  • compreender nossas emoções;

  • desenvolver novos padrões;

  • construir relacionamentos seguros;

  • buscar ajuda;

  • fortalecer nossa identidade;

  • permitir que Deus participe desse processo.

A pessoa não muda porque o passado desaparece.

Ela muda porque aprende uma nova forma de se relacionar com sua própria história.


Você é maior do que aquilo que viveu


Talvez sua infância tenha deixado marcas.

Talvez você carregue lembranças que ainda doem.

Mas a sua história não termina onde sua ferida começou.

Você não é apenas aquilo que aconteceu com você.

Você também é tudo aquilo que está sendo construído dentro de você.

Existe vida depois da dor.

Existe restauração depois das feridas.

Existe um novo capítulo esperando para ser escrito.


Os traumas da infância podem influenciar nossa autoestima, nossos relacionamentos e nossa forma de enxergar o mundo.

Mas eles não precisam controlar nossa vida para sempre.

Quando olhamos para nossa história com consciência, acolhimento e verdade, abrimos espaço para transformação.

A psicanálise nos ajuda a compreender nossas emoções.

A neurociência mostra que mudanças são possíveis.

A fé nos lembra que nenhuma ferida é maior do que o poder restaurador de Deus.

O passado faz parte da nossa história.

Mas ele não precisa ser o autor do nosso futuro.



Você sente que algumas dores antigas ainda influenciam suas escolhas, seus relacionamentos ou sua forma de enxergar a si mesma?

Buscar compreensão sobre sua história é um ato de coragem.

A terapia pode ajudar você a identificar padrões emocionais, ressignificar experiências e construir uma vida mais consciente e saudável.

Se este artigo falou com você, compartilhe com alguém que precisa descobrir que suas feridas podem ser transformadas em um caminho de crescimento.

Com carinho,

Priscila Furtado

Psicanalista Cristã

Ciência e Fé

No Divã dos Céus

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